Análise: Corinthians cai em casa e transforma a Libertadores em mais uma ferida na temporada

Timão tinha a Neo Química Arena lotada, elenco descansado e a vantagem de decidir em casa, mas apresentou pouco futebol e terminou eliminado pelo Estudiantes

Análise: Corinthians cai em casa
Corinthians cai em casa e transforma a Libertadores em mais uma ferida – Foto: Reprodução

A eliminação do Corinthians na Libertadores diante do Estudiantes é daquelas que dificilmente serão esquecidas pelo torcedor.

Não apenas pelo pênalti desperdiçado por Memphis Depay nos acréscimos, mas principalmente pela maneira como o time se despediu da competição.

Mais de 47 mil pessoas foram à Neo Química Arena na expectativa de assistir a uma classificação que poderia mudar completamente o ambiente do clube.

O que aconteceu, porém, foi justamente o contrário. O Corinthians perdeu por 1 a 0, criou muito pouco durante a partida e terminou mais uma campanha continental com a sensação de que poderia ter feito muito mais.

Na minha opinião, é importante não transformar Memphis no único personagem dessa eliminação. O pênalti perdido foi o momento mais doloroso da noite, mas o Corinthians teve uma partida inteira para construir uma vantagem e praticamente não conseguiu.

O pênalti virou o símbolo de uma atuação ruim

É impossível ignorar o lance de Memphis.

Nos acréscimos, o camisa 10 teve a oportunidade de empatar o confronto e levar a decisão para os pênaltis. A cobrança parou no travessão e, segundos depois, a eliminação estava confirmada.

Foi cruel? Sem dúvida. Mas, na minha leitura, o resultado não pode ser explicado apenas pelo erro do holandês.

Se o Corinthians tivesse produzido ofensivamente durante os 90 minutos, provavelmente estaríamos falando do pênalti como um detalhe dentro de uma classificação.

Como isso não aconteceu, a cobrança acabou se transformando no retrato de uma noite inteira de dificuldades.

O time precisava vencer, jogava diante de sua torcida e tinha seus principais jogadores disponíveis. Mesmo assim, faltaram criatividade, intensidade e principalmente capacidade para transformar posse e pressão em chances reais de gol.

Corinthians cai em casa e transforma a Libertadores em mais uma ferida – Foto: Reprodução

Corinthians teve a atmosfera, mas não teve futebol

A Neo Química Arena fez sua parte.

O torcedor compareceu em grande número e criou o ambiente esperado para uma decisão de Libertadores. O problema é que a equipe não conseguiu acompanhar a energia das arquibancadas.

Na minha avaliação, esse talvez seja o aspecto mais preocupante da eliminação. Em uma partida desse tamanho, não era necessário apresentar um futebol perfeito. Era necessário, pelo menos, demonstrar urgência e capacidade de incomodar o adversário.

Isso não aconteceu de maneira suficiente.

O Estudiantes encontrou um Corinthians pouco criativo e conseguiu administrar boa parte do confronto. Quando o relógio avançava, a pressão aumentava, mas as oportunidades claras continuavam escassas.

A classificação, portanto, acabou ficando muito mais distante do que o cenário pré-jogo fazia imaginar.

O problema ofensivo deixou de ser pontual

A eliminação também expõe algo que venho percebendo no Corinthians há algum tempo: o problema não está apenas em uma partida ruim.

O setor ofensivo não vem funcionando como se esperava.

Memphis Depay, Rodrigo Garro e Kaio César formam um trio que, no papel, oferece velocidade, criatividade e capacidade técnica. Na prática, entretanto, a conexão entre essas peças não tem produzido o volume ofensivo necessário.

E esse é um ponto que considero fundamental.

Não adianta simplesmente colocar grandes nomes no mesmo time e esperar que a qualidade individual resolva tudo.

É necessário existir uma estrutura para que esses jogadores recebam a bola nas condições certas, tenham movimentação ao redor e consigam participar de maneira constante.

O Corinthians não está conseguindo fazer isso.

Corinthians cai em casa e transforma a Libertadores em mais uma ferida – Foto: Reprodução

Os resultados recentes reforçam o alerta

A queda na Libertadores não acontece isoladamente.

O Corinthians também já foi eliminado da Copa do Brasil e chega ao fim da participação continental pressionado no Campeonato Brasileiro.

O desempenho recente na competição nacional também não oferece tranquilidade ao torcedor.

São resultados que mostram uma equipe com dificuldade para reagir justamente quando precisa assumir o protagonismo.

Na minha opinião, esse é o maior fantasma que acompanha o Corinthians neste momento: a equipe parece sempre precisar de um acontecimento externo para mudar uma partida.

Contra o Estudiantes, a esperança de classificação apareceu principalmente a partir de um erro adversário. Faltou ao Timão construir a própria oportunidade.

Para um clube com o tamanho do Corinthians e um elenco que conta com jogadores como Memphis, Garro e André Carrillo, isso é pouco.

A Libertadores volta a ser um trauma para o Corinthians

A história corintiana na competição continental possui capítulos dolorosos.

O clube já viveu eliminações marcantes diante de Palmeiras, River Plate, Guaraní e Tolima, entre outras.

O título de 2012 permanece como a grande conquista continental da história alvinegra, mas justamente por isso cada nova oportunidade perdida ganha peso enorme para a torcida.

Não acredito que seja correto colocar todas essas eliminações no mesmo nível. São épocas, elencos e contextos completamente diferentes.

Ainda assim, existe uma característica que se repete em algumas dessas campanhas: o Corinthians entra em determinados confrontos com expectativa de classificação, mas não consegue transformar o favoritismo em desempenho dentro de campo.

Foi o que aconteceu novamente.

Dessa vez, o adversário não precisou de uma atuação extraordinária para sair classificado. O Corinthians simplesmente não encontrou respostas suficientes para mudar o cenário.

Reação de Memphis Depay à perda do pênalti no fim de Corinthians x Estudiantes pela Libertadores — Foto: Marcos Ribolli

Memphis terá que lidar com a pressão

Depois do pênalti perdido, Memphis naturalmente será um dos jogadores mais cobrados.

O holandês chegou ao Corinthians com status de estrela e assumiu responsabilidades importantes dentro do elenco. Quando um jogador desse tamanho participa de um lance tão decisivo, é inevitável que a cobrança aumente.

Mas existe uma diferença entre responsabilizar Memphis pelo pênalti e responsabilizá-lo pela eliminação.

Na minha visão, seria injusto colocar toda a queda nas costas do camisa 10. O Corinthians precisava apresentar mais futebol antes mesmo de chegar àquela cobrança.

O episódio, entretanto, aumenta a necessidade de uma resposta do jogador. Memphis precisa recuperar confiança, melhorar sua produção ofensiva e voltar a ser decisivo.

Agora não existe mais espaço para esconder problemas

A Libertadores acabou. A Copa do Brasil também.

Restou o Campeonato Brasileiro.

E isso pode ser encarado de duas maneiras. A primeira é lamentar o fim da temporada de competições eliminatórias.

A segunda, que considero mais necessária, é utilizar os jogos restantes para identificar o que realmente precisa mudar no Corinthians.

Não há mais como esconder as deficiências atrás de uma possível classificação, de um mata-mata ou de uma próxima competição.

O Timão precisa recuperar sua capacidade ofensiva, encontrar um funcionamento melhor para seus principais jogadores e terminar o Brasileirão com alguma perspectiva positiva.

Na minha avaliação, a eliminação para o Estudiantes não deveria ser tratada apenas como mais um trauma histórico do Corinthians na Libertadores. Ela precisa servir como diagnóstico.

O pênalti de Memphis foi o último golpe de uma noite ruim. O verdadeiro problema está no fato de que, durante praticamente toda a partida, o Corinthians não mostrou futebol suficiente para evitar que aquele pênalti se tornasse sua última esperança.

Agora, resta ao clube recuperar a credibilidade no Brasileirão, administrar a pressão e começar a preparar um novo ciclo.

Porque, neste momento, o Corinthians não precisa apenas superar mais uma eliminação. Precisa descobrir como voltar a competir de verdade.